Festival Promessas: promessas de quê?

        No último sábado, dia 10/12, aconteceu no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro, o primeiro festival de música gospel promovido pela Rede Globo (isso mesmo: Rede Globo!). O evento contou com a participação de vários artistas do segmento conhecidos nacionalmente, como a banda Diante do Trono e as cantoras Fernanda Brum, Damares e Eyshila.

        O festival foi exaustivamente propagandeado pela Globo, que transformará os seus melhores momentos em um especial de fim de ano. A Globo.com fez a cobertura do evento, disponibilizando pequenos trechos e depoimentos dos artistas. O Jornal Nacional também noticiou o festival em várias edições e, no dia em que ele ocorreu, fez um link ao vivo mostrando momentos do show:

        Aparentemente um sucesso. Porém, o blog evangélico Genizah, bastante conhecido no meio, trouxe uma outra perspectiva do evento com o post Festival “Promessas” ficou na promessa e foi fracasso total de público. O autor, Danilo Fernandes, faz uma avaliação do evento e tenta explicar o porquê de artistas que costumam atrair multidões não terem conseguido repetir o êxito no tão alardeado festival. Um dos maiores motivos? A desconfiança.

        Nas igrejas, o clima é exatamente este: de desconfiança. Afinal de contas, a Rede Globo sempre atacou os evangélicos e agora simplesmente resolve tentar uma ‘aproximação’. É óbvio que a Globo já entrou na briga pela audiência deste público e alguns motivos (talvez os principais) estão bem claros: conquistar um segmento que vem crescendo assustadoramente no país e que tem alto poder de consumo e desbancar a Rede Record, de propriedade do bispo Edir Macedo.

        A briga pelos evangélicos entre os ‘titãs’ Globo e Record promete. Promete muita exposição, muito espetáculo e muita troca de farpas. O que vai sair desta briga provavelmente não será de grande proveito para os evangélicos em geral. Uma onda de ‘crentês’ sem profundidade teológica e doutrinária talvez esteja por vir. Mais espetáculos, mais estereótipos, mais teologia da prosperidade… e menos Jesus, que é o que realmente importa. Será que são essas as promessas do festival, que simbolizou um marco para o início da nova era – a da TV aberta gospel?

        Como diriam na minha igreja, ‘crentes de todo o Brasil, vigiai’. A tão sonhada exposição midiática talvez esteja a caminho, mas será que vem da forma que tanto se desejou?

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A pobre ateia e o evangélico opressor

Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista (Foto: ÉPOCA

     A revista Época desta semana publicou um artigo da jornalista Eliane Brum intitulado A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico. Achei que valia a pena trazê-lo para o blog porque ele atesta, ainda que de forma involuntária, um dos maiores problemas que está na raiz do preconceito contra o evangélico: a ignorância. De ambos os lados.

     No artigo a jornalista narra uma conversa que teve com um taxista, na qual ele afirmava ser crente e ela, ateia. Ao ouví-lo dizer “Deus me livre!” quando soube de sua convicção, ela trava um diálogo inconformado com ele, afirmando respeitar a sua crença religiosa e, em contrapartida, não receber de volta o mesmo respeito.

     O que me chamou atenção neste texto de Eliane Brum foi o fato de usar um diálogo entre ela mesma, uma pessoa aparentemente instruída e de nível social mais abastado,  e um taxista, que muito provavelmente não teve a mesma formação intelectual, para justificar uma possível ameaça que os evangélicos representam aos ateus. Há um ‘pequeno’ desnível aí. Historicamente falando, sempre foram as elites econômica e intelectual que representaram uma ameça aos menos favorecidos, e não o contrário. Seria o mesmo que dizer que os brancos hoje são ameaçados pelos negros ou que os heterossexuais são acuados pelos homossexuais. Não tem sentido.

     A ignorância neste diálogo relatado pela jornalista está dos dois lados: do lado dela, que não teve tato para perceber que travava uma discussão injusta com uma pessoa menos escolarizada e que não tinha a mesma capacidade argumentativa que ela; e do lado dele, que foi atraído para o protestantismo pelo caminho mas sedutor e, ao mesmo tempo, mais perigoso, pela falta de preocupação que os líderes têm com conteúdo: o neopentecostalismo. Infelizmente, Eliane Brum não está de todo errada quando afirma que as igrejas dessa linha estão muito mais preocupadas em somar fieis do que em instruí-los. Mas que fique claro: não são todas. A tolerância ainda é, sim, uma virtude ensinada nas igrejas. E ela, como pessoa esclarecida que demonstra ser, deveria ter discernimento para entender que talvez o taxista seja mais uma vítima da ‘religiosidade vitrine’ que se prega em muitos lugares (não só nos templos evangélicos) e que é fruto dessa nossa era pós-moderna.  A sede de novidade sem muito aprofundamento está em tudo: na religião, nas artes, na educação e até mesmo (!) no jornalismo. E é claro que uma jornalista minimamente esclarecida SABE disso.

     Se esse diálogo tivesse sido travado com um crente de mesmo nível social e cultural que ela, será que teria rendido esse artigo tão generalizante, preconceituoso e fracamente argumentado?  Aliás, será que chegaria a render um artigo?

    Desculpe-me, Eliane Brum, mas você fez o que milhares de pessoas muito menos instruídas que você já fazem há tempos: rotulação sem embasamento.

De quem é a culpa?

A imagem negativa que envolve os evangélicos é um fato. Não precisa ir muito longe para descobrir o manto de preconceito, intolerância e desconhecimento que os envolve.

Infelizmente, existem os falsos representantes da fé evangélica que contribuem e muito para o conceito deturpado que se têm acerca dessa religião. Sim, tenho de admitir que existem muitos “crentes” que dão margem para o reforço do rótulo pejorativo. Mas, enquanto evangélica, posso afirmar que já há um esforço nas igrejas para formar cristãos cada vez mais esclarecidos e cientes do que significa seguir verdadeiramente a Cristo – o que previne determinadas práticas e comportamentos deturpados. Há um grande investimento em mostrar às pessoas o verdadeiro Evangelho e desmascarar os aproveitadores. Mas, claro, isso não garante uma eficácia de 100% (como em toda e qualquer religião).

Este post é uma espécie de mea culpa. Seria ingênuo atribuir exclusivamente à mídia a formação da imagem negativa dos evangélicos no Brasil.  Certamente, muitas notícias divulgadas por ela não são inventadas, mas tão somente exploradas até a última gota sob o pretexto da informação de utilidade pública. Mas vale ressaltar que é exatamente aí que a presteza da imprensa trai a sua tão pretendida “imparcialidade”: ela maximiza o que é menor; generaliza o que é exceção; joga na mesma vala o joio e o trigo e dá subsídios para um pré-julgamento.

A relação entre evangélicos e imprensa já foi muito pior. Talvez o crescimento acelerado da população evangélica nos últimos anos tenha exercido uma forma de pressão e hoje já se pode dizer que eles são retratados com um pouco mais de respeito nos noticiários. Mas as mudanças são muito tímidas e acontecem a passos de tartaruga. Que fique bem claro: não queremos somente aparecer “bem na fita”, mas também não queremos ser representados pela banda podre. As denúncias e a publicização dos erros são válidas para manter a população mais atenta aos negociadores da fé. Mas há um vasto lado positivo a ser explorado no meio evangélico e que simplesmente é ignorado pelos veículos, que parecem estar o tempo todo correndo atrás de escândalos. 

Para finalizar, quero dizer que a falta de credibilidade que cerca as igrejas evangélicas não é fruto somente da atuação dos meios de comunicação, mas é também.  O jornalismo brasileiro ainda tem muito o que mudar para reparar o dano que causou durante tantos anos de perseguição.

A face da intolerância

Saiu no G1 no dia 27/10/2011:

Pastor que queimou o Alcorão será candidato à presidência dos EUA

O Pr. Terry Jones, que pastoreia a igreja Dove World Outreach Centre, em Gainesville (Flórida), virou notícia no ano passado, quando planejou queimar exemplares do Alcorão em sua igreja no aniversário do atentado terrorista do 11 de Setembro. Pressionado por líderes internacionais, ele desistiu da ideia, mas em março deste ano botou em prática o seu plano.

A notícia acima mostra o absurdo: um líder (evangélico) intolerante vai entrar na disputa pelo maior cargo dos EUA.

Exemplos como este, obviamente, não representam o comportamento evangélico como um todo. Mas, é claro, constroem um tipo de imagem para os, digamos, “desavisados” (maioria?). Basta dar uma olhada nos comentários da notícia:

Infelizmente, cometemos e muito o erro de generalizar a partir de um caso isolado. No entanto, quando a imprensa SÓ divulga os casos isolados, faz com que eles pareçam dominantes. E foi isso o que se fez com a igreja evangélica durante muitos anos. Como membro atuante de uma igreja evangélica, posso afirmar que é bastante comum as pessoas entrarem nos templos e saírem admiradas por não encontrarem ali nada do que povoa o imaginário popular acerca dos crentes. Fica a pergunta: quantas pessoas que querem e precisam poderiam estar agora sendo amparadas por uma igreja, mas se mantêm afastadas por medo?

Jornal Nacional – a redenção!

Em maio de 2009, o Jornal Nacional exibiu uma série de reportagens sobre os evangélicos no Brasil. A iniciativa causou surpresa para os mesmos que, acostumados a ver sua religião depreciada no jornalismo da Globo, puderam assistir, durante 1 semana e em horário nobre, matérias positivas sobre ela. Vale a pena relembrar:

Para ver as outras reportagens, clique aqui, aqui e aqui.

Pastor evangélico recebe sentença de morte no Irã

Há aproximadamente um mês o Pr. Yousef Nadarkhani vem lutando contra o Supremo Tribunal do Irã, que o condenou à execução por enforcamento por ter quebrado a lei islâmica e realizado cultos cristãos e batismos. Acusado de apostasia e taxado como uma ameaça à segurança nacional, o pastor vem sendo pressionado pelo tribunal a negar sua fé em Jesus Cristo, já que ele possui ascendência islâmica. Os advogados do Pr. Nadarkhani estão tentando apelar para que o tribunal reveja a sentença e evangélicos do mundo inteiro se mobilizam para pressionar as autoridades iranianas.

Assim como o Pr. Yousef Nadarkhani, centenas de evangélicos são perseguidos e morrem todos os anos por cometerem o mesmo “crime”: professar a fé cristã em países que não toleram a liberdade religiosa. Notícias desse teor chegam ao conhecimento dos brasileiros apenas pelos meios de comunicação evangélicos e não repercutem nos grandes veículos. O trabalho social que os missionários exercem em diversos lugares do Brasil e do mundo fica igualmente encoberto, pela falta de interesse da mídia em cobrir fatos que desmintam o perfil já montado do evangélico – falso moralista, conservador, aproveitador, preconceituoso etc..

Para saber mais sobre a batalha do Pr. Yousef Nadarkhani, veja aqui, aqui e aqui.

Censura aos conteúdos cristãos

O Gospel +, site de notícias do mundo evangélico, publicou nesta segunda-feira, 26/09, a seguinte notícia:

Estudo revela: Facebook, Google e outros grandes sites censuram severamente conteúdos cristãos 

A matéria mostra como esses sites fazem uso de normas reguladoras que impedem a manifestação de opiniões cristãs. Geralmente são utilizadas políticas de livre expressão mais rigorosas do que as apresentadas pela própria Constituição norte-americana.

Dois pontos devem ser ponderados aqui: o primeiro é que, infelizmente, muita gente que se diz “cristã” usa a internet para disseminar seu ódio e preconceito a determinados grupos. Esse tipo de atitude, sim, justifica algumas medidas de censura, já que geralmente essas opiniões são expressas anonimamente ou através de contas falsas, o que torna difícil a punição legal de seus autores. Mas, por outro lado, um segundo ponto que merece ser destacado é que o princípio da liberdade de expressão religiosa não está sendo respeitado por esses sites que, segundo o estudo, impedem indiscriminadamente a publicação de conteúdos que estejam vinculados à igreja cristã. Toda e qualquer instituição religiosa tem o direito de professar publicamente sua fé e suas doutrinas, desde que não ofenda ou discrimine outras religiões ou grupos sociais. E, por mais que os meios de comunicação façam parecer que igrejas evangélicas são preconceituosas e radicais, essas não são as características da maioria delas, que sofre com a generalização deste estereótipo.

No Brasil, uma das heranças deixadas pela ditadura militar foi uma verdadeira ojeriza à censura por parte da sociedade e, principalmente, dos meios de comunicação. Até hoje, qualquer indício de impedimento de publicação, por menor que seja, já é altamente rechaçado pelos comunicadores, seja no rádio, na TV ou na mídia impressa. Eles querem ser livres para informar. Mas e quando a censura parte das próprias empresas de comunicação? Aí pode?